Biografía

Macaco

“Meu barco é um acorde, meu remo uma palavra cruzada /cato o vento e me meto pelo mar ondulado / E entre tanto movimento, por vezes uma onda traz-me a melodia adequada“

Assim, com três versos conscientes de que, como disse Eduardo Galeano, o verdadeiro desafio é viver o que se escreve, define Dani Macaco sua conceção do processo criativo. Trinta e duas palavras retratam com exatidão poética o tema central de um artista que, tendo conseguido em Espanha uma estranha – e rara – unanimidade crítica e comercial, se faz ao mar, atravessa o Oceano Atlântico e chega à América Latina com um cartão de visita preparado com humildade esperançosa e um jeitinho requintado. Porque “Mensajes del Agua” (“Mundo Zurdo”- EMI, 2011) não é um “grandes êxitos” habitual, mas sim um compêndio das canções que, hoje e agora, melhor representam alguém convencido de que o presente é o único bem que o homem realmente possui.

Desde que, em 1997, decidiu arrancar com o projeto que tem o seu nome, Dani Macaco deu o exemplo, convertendo cada tema, cada disco, cada concerto em um novo começo. Distinguir a convicção da rotina, o desejo da demagogia, a ambição do artifício levou-o a viver em pleno cada instante aproveitando as oportunidades que o seu talento lhe oferece e partilhando a amizade do elenco que, em pararelo com o seu mais recente lançamento na pele de touro – “El Vencindario”(“Mundo Zurdo”- EMi, 2010) –, aqui o acompanha. De “One Step”, composta para a campanha de beneficiência “Shoes For Africa” e coroada pelas vozes de duas das mais veneradas divinidades africanas (o senegalês Youssou N’Dour e a malinesa Oumou Sangaré) a “Monkey Man”, versão do clássico de Toots & The Maytals que já epilogava os concertos do seu último tour ao que o americano Michael Franti (Spearhead) não hesitou em unir-se, passando pela colaboração da mexicana Ximena Sariñana em “Mundo Roto”, este álbum também é a prova de que a música continua a ser uma linguagem universal.

Também porque, antes de mais, “Mensajes del Agua” revisita uma carreira em continuo progresso que, superando em Espanha a fronteira do Disco de Platina (físico) e o de Dupla Platina (digital) com “Puerto Presente” (“Mundo Zurdo”- EMI, 09), o fez merecedor de uma série de reconhecimentos impressionantes que incluem o Prêmio Ondas para o Melhor Álbum, um Prêmio Principales para o Melhor Vídeo-Clip (“Moving”) e três nomeações adicionais, um Prêmio Rolling Stone, várias nomeações para o Grammy Latino (Melhor Canção Alternativa) e para os MTV Europe Music Awards e, finalmente, o Prêmio Para a Melhor Canção (“Moving”) concedido pelos leitores de EP3-El País.

Mas que as árvores do éxito não nos impeçam de ver o bosque da verdade: muito antes de que Javier Bardem, Juanes ou Juan Luis Guerra, entre muitos outros, decidissem participar desinteressadamente no clip de Moving, uma introdução à filosofia dos pequenos movimentos que, abraçada pela grandes mídia, ilustrou o trânsito do under ao overground, Dani Macaco já operava num território próprio, capital da fusão sem confusão, patrimônio da humanidade com a comunicação como única bandeira e porto franco ao qual chegam odes à natureza como romances marítimos.

Não surpreendentemente, “Ingravitto” (“Mundo Zurdo”- EMI, 06) já ficou consagrado na própria essência da música popular: a canção, essa última revolução de que tanto falava John Lennon, o princípio da síntese e a finalidade absoluta para um autor sempre implicado na universalidade do local. Mais do que as oitenta mil cópias vendidas no seu país e da enorme repercussão de um clip,“Mama Tierra”, no qual ilustres colegas de profissão (Bunbury, Bebe, Julieta Venegas), atores de primeira linha (Luís Tosar, Lola Dueñas) e comunicadores de referência (Jon Sistiaga) amplificavam a sua chamada de atenção sobre o mal que infringimos continuamente ao nosso planeta, o disco significou um definitivo ponto de viragem para a sua projeção a nível internacional com atuações nos principais festivais continentais e apresentações em direto em Itália, Suiça, Portugal, França e Estados Unidos; e sobretudo, para a sua maturidade autoral imparável.

Certamente, “Ingravitto” foi a justa recompensa por um processo de investigação que, de alguma maneira, culminou em “Entre Raíces y Antenas” (“Mundo Zurdo”- EMI, 04), um ambicioso trabalho concetual a que a história já fez justiça. Explorando as relações entre tradição e vanguarda, Dani Macaco preparou um CD duplo que compreendia a descoberta do tesouro mais precioso – o groove, o caminhar, o batuque, a cozinha – como um caminho de ida e volta. Primeiro, De la raíz a la antena, explorando juntamente com a sua banda as origens de um som cru, fibroso e contundente. Depois, De la antena a la raíz, trabalhando na solidão do estúdio a vertente orgânica da música eletrônica. Um verdadeiro tour de force que carimbou o passaporte para um tour que incluiu México, Brasil, Austrália, Taiwan e Japão, que juntou a La Banda Ionica, Zuco 103 ou Arianna Pueyo ao seu, já então, longo currículo de colaborações.

Não é por acaso que Dani Macaco foi sempre um artista de artistas. É escusado recordar que David Byrne remisturou “Delaveraveraboom” e convidou-o para produzir para Luaka Bop após ouvir “El Mono en el Ojo del Tigre” (Edel, 99). Que o italiano Roy Paci (Mau Mau), os senegaleses Touré Kunda e o brasileiro Lenine deixaram a sua marca em “Rumbo Submarino” (Edel,01). E que, para além da fundação Ojos de Brujo, entre as suas inúmeras atividades figura a inovadora banda sonora de “Cruzando el Límite” (Xavi Giménez, 2010) e participações em “No me pidas que te bese” (08), de Albert Espinosa, “Amnesia” (02), de Gabriele Salvatore (Óscar para o Melhor Filme Estrangeiro por “Mediterráneo”), “Darkness” (02), de Jaume Balagueró (Méliès de Ouro no Festival de Sitges por “Los Sin Nombre”) ou “A más” (02), de Xavi Rivera (onde interpreta um pequeno papel com Najwa Nimri).

E, como diz um dos seus recentes clássicos (“Tengo”), Dani Macaco chegou até aqui com base no amor e fé. O amor e a fé que lhe demonstrou o povo saharaui pela sua atuação no fecho do Festival Internacional de Cinema do Sahara (FiSahara’09), auge emocional de um tour que, ao longo dos últimos anos, percorreu Espanha e Portugal: uma larga centena de concertos que não o impediram de articular o que, em breve, será o seu debute literário, e converter “Mensajes del Agua” no seu tão desejado visto de entrada no México, Argentina e Brasil.